SECRETARIA DE CIÊNCIA
E TECNOLOGIA
  Sistema de Meteorologia do Estado do Rio de Janeiro


 


"O TEMPO, O CLIMA E O AR QUE RESPIRAMOS"


Mensagem de Michel Jarraud
Secretário-geral da OMM

Todos os anos, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) e a comunidade meteorológica internacional celebram o Dia Meteorológico Mundial, comemorando assim a entrada em vigor da Convenção da OMM em 23 de Março de 1950, precisamente 30 dias após a data do depósito do 30º Instrumento de ratificação ou de adesão dos Membros.

A partir de então, a OMM assumiu as responsabilidades da antiga Organização Meteorológica Internacional (OMI), estabelecida no Primeiro Congresso Internacional de Meteorologia (Viena, Setembro 1873), para promover a colaboração internacional em meteorologia, coordenando as observações e padronizando os instrumentos.

Em 1951, um ano após esta reestruturação, a OMM tornou-se uma agência especializada das Nações Unidas. Hoje, com um maior número de Membros (188 países e territórios) a OMM alargou o seu campo de ação aos problemas hídricos e ambientais.

Tradicionalmente associa-se o Dia Meteorológico Mundial a um tema relevante. Neste contexto, foi decidido durante a 59.ª sessão do Conselho Executivo da OMM, realizada em Maio de 2007, que o tema para 2009 seria O Tempo, o Clima e o Ar que Respiramos. Este tema é particularmente adequado, numa altura em que todas as comunidades no mundo pretendem atingir os Objetivos de Desenvolvimento para o Milênio das Nações Unidas (The United Nations Millenium Development Goals), especialmente no que se refere às áreas da saúde, alimentação, gestão de recursos hídricos e redução da pobreza, assim como, no aumento da eficácia na previsão e na redução dos desastres naturais, 90% dos quais estão diretamente relacionados com o estado do tempo, com o clima e com os fenômenos hídricos, enquadrando-se desta forma nas competências da OMM. Além disso, cientistas e profissionais de saúde/médicos estão cada vez mais conscientes das ligações estreitas entre o clima, o estado do tempo e a composição do ar que respiramos e os seus efeitos na saúde.

Durante séculos, o Homem adaptou-se às alterações do estado do tempo e do clima, através da mudança das suas condições de vida, de habitabilidade, da produção de alimentos e de energia, adotando um estilo de vida em harmonia com as condições climáticas e ambientais. No entanto, nas últimas décadas, o crescimento populacional, o aumento da utilização de energia e o desenvolvimento industrial têm contribuído para a libertação de gases e partículas que podem afetar a saúde do Homem. Assim, problemas como a asma, doenças cardíacas, câncer pulmonar e muitos outros relacionados com a saúde têm vindo a agravar-se ou ter como causa a diminuição da qualidade do ar. Para além disto, a poluição do ar afeta a economia mundial, a segurança no aprovisionamento de alimentos e água, provocando danos nas plantas, culturas e ecossistemas.

É interessante recordar que Hipócrates (460-377 a.C.), considerado por muitos como o pai da medicina rejeitou a superstição em prol da observação científica, classificou doenças e estabeleceu normas morais e profissionais que ainda hoje se mantêm. Em particular, na sua obra Sobre o ar, águas e locais (séc. V a.C.) trata dos efeitos do clima, das reservas hídricas e das regiões na saúde humana e compara as condições geofísicas da Europa e da Ásia. Na época de Hipócrates no geral se aceitava que somente existiam quatro elementos: terra, ar, fogo e água com as suas correspondentes propriedades de frio, aridez, calor e umidade. Se estes estivessem no corpo humano em concentrações e localizações corretas, então, existiria saúde, mas a destruição desse equilíbrio afetaria também o equilíbrio da saúde. Hoje sabemos que a existência de gases e partículas na atmosfera tem uma importância relevante no clima, estado do tempo e qualidade do ar.

Os meteorologistas, os climatologistas e os químicos da atmosfera estão continuamente a contribuir para a diminuição dos impactos do estado do tempo, do clima e da qualidade do ar que respiramos através de um trabalho conjunto para fornecer, aos profissionais da saúde e aos cientistas ambientais, previsões e análises de distribuição, concentração e transporte de gases e partículas na atmosfera.

Nos anos 50 do século XX, a OMM foi pioneira na coordenação das observações e análises da composição atmosférica. Informação, sobre gases de efeito de estufa, aerossóis e ozônio, bem como as variáveis clássicas meteorológicas e hidrológicas observáveis, é agora obtida regularmente, utilizando redes globais de estações de superfície e de observação remota, radiossondas, aviões e satélites. Todos estes processos possibilitaram a compreensão das alterações da composição química da atmosfera e contribuíram para a constituição da base científica dos nossos conhecimentos atuais sobre os efeitos do estado do tempo e clima na qualidade do ar, assim como sobre o impacto recíproco dos constituintes da atmosfera no tempo e no clima.

Numerosos exemplos desta atividade inovadora da OMM podem ser encontrados em estudos científicos anteriores, iniciados no contexto dos Anos Polares e Geofísicos Internacionais, através da colaboração com outras organizações internacionais e do trabalho dos Serviços Meteorológicos e Hidrológicos Nacionais dos Países Membros da OMM. Neste domínio, a OMM tem estado ativamente envolvida nos esforços internacionais para avaliar evolução da atmosfera, em termos de poluentes, como o ozônio à superfície, poluição, partículas, dióxido de enxofre e monóxido de carbono, muitos dos quais resultam diretamente da combustão de energias fósseis utilizadas nas fábricas, nas grandes cidades e na circulação automóvel. A OMM foi pioneira no estabelecimento de três grandes convenções internacionais relacionadas com a composição atmosférica: Convenção do Transporte Transfronteiriço a Longa Distância da Poluição do Ar da Comissão Econômica para a Europa das Nações Unidas (1979) (United Nations Economic Commission for Europe Convention on Long Range Transboundary Air Pollution), Convenção de Viena para a Proteção da Camada de Ozônio (1985) (Vienna Convention on Protection of the Ozone Layer) e a Convenção-Quadro para as Alterações Climáticas das Nações Unidas (1994) (United Nations Framework Convention on Climate Change - UNFCCC). Hoje em dia, a OMM continua a apoiar estes mecanismos internacionais de ação global.

Muitos dos poluentes atmosféricos resultantes da revolução industrial são também responsáveis por outras mudanças de que nos apercebemos no nosso clima, que ultrapassam o alcance das variações naturais normais que seriam de esperar se fossem causadas unicamente por processos astronômicos e geofísicos naturais.

O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (Intergovernamental Panel on Climate Change - IPCC), entidade co-financiada pela OMM, apresentou o seu Quarto Relatório de Avaliação (Fourth Assessment Report) e recebeu, em 2007, o prestigiado Prêmio Nobel da Paz. Nas suas conclusões é afirmado que as alterações climáticas são inequívocas e muito provavelmente resultantes da emissão crescente de gases antropogênicos que contribuem para o efeito de estufa. O IPCC antecipou igualmente um aumento na freqüência e intensidade de inundações, secas e outros fenômenos meteorológicos e climáticos extremos, como resultado de um aumento da temperatura do ar, em particular ondas de calor que podem provocar efeitos adversos na saúde humana e aumentar os eventos de poluição e o número de incêndios.

O vento, a chuva, a neve, a radiação solar e a temperatura afetam de forma diversa a permanência e o transporte dos poluentes na atmosfera. O calor urbano pode manter os poluentes enquanto que a chuva e a neve tendem a limpar a atmosfera transportando os poluentes da atmosfera para o solo e oceanos. Os cientistas podem desta forma usar os modelos meteorológicos para avaliar e prever padrões de poluição atmosférica. Estas previsões atempadas e precisas podem contribuir para a salvaguarda e proteção de vidas e bens, e complementar as tradicionais previsões meteorológicas.

Apesar do desenvolvimento das previsões regionais da qualidade do ar ter melhorado nos últimos 30 anos a sua difusão atempada para comunidades locais é ainda muitas vezes um desafio. No entanto, as previsões de qualidade do ar estão a ser difundidas por um número cada vez maior de Serviços Meteorológicos, muitos dos quais também fornecem uma grande variedade de índices de qualidade do ar e avisos de fácil leitura e adaptados localmente, tais como esquemas com códigos de cor. Dado que o modo como cada região difunde os seus avisos varia consideravelmente, a OMM promove formação para maximizar a eficácia dos produtos da qualidade do ar e os seus benefícios sociais.

Nunca como agora estes produtos foram tão necessários. A Organização Mundial de Saúde (World Health Organization - WHO) estimou uma média de 2 milhões de mortes prematuras por ano devido à poluição do ar. Mesmo concentrações relativamente pequenas de ozônio à superfície, partículas e poluentes têm efeitos nas condições de saúde do coração e do sistema respiratório, em especial nos países em desenvolvimento, pelo que as previsões de qualidade do ar possibilitam avisos precoces, de importância vital na redução dos perigos associados aos poluentes atmosféricos.

À medida que as grandes metrópoles crescem, a poluição urbana afeta um maior número de pessoas no mundo. Cerca de metade da população mundial vive nas grandes cidades, muitas das quais, em especial nos países em desenvolvimento, não têm qualquer vigilância da poluição atmosférica. Portanto, mobilizar esforços e desenvolver medidas políticas apropriadas para vigiar e fazer face ao problema da poluição do ar é um desafio crescente e adicional nesses países. A Vigilância Global da Atmosfera (Global Atmosphere Watch - GAW) e o Programa Mundial de Investigação do Tempo (World Weather Research Programm) da OMM estão a aumentar o conjunto dos serviços sobre a qualidade do ar, disponíveis atualmente através dos Serviços Meteorológicos e Hidrológicos Nacionais (SMHN) dos Países Membros da OMM, tendo vários projetos já iniciados em diferentes países, para melhorar as previsões de poluição do ar e prevenir os impactos a ela associados.

Além de coordenar as previsões da qualidade do ar, a OMM promove a investigação científica na área da poluição atmosférica. As partículas em suspensão - ou aerossóis - são um fator importante a ter em conta no cálculo da absorção e reflexão da radiação pela superfície terrestre, nuvens e atmosfera, bem como na formação das nuvens e da precipitação. Embora a chuva limpe a baixa atmosfera dos aerossóis em poucos dias, algumas partículas podem persistir por períodos mais longos nas massas de ar mais secas e na alta atmosfera, com efeitos diversos. Assim, o estudo dos aerossóis tornou-se uma área importante de investigação e será uma das componentes principais dos modelos da nova geração de previsão do tempo e clima.

O conteúdo em areia e poeira é também um fator crítico da qualidade do ar, pois reduz a visibilidade, danifica as culturas e afeta o clima local. Dar resposta aos desafios específicos, que são as tempestades de areia e poeira, é um dos objetivos principais do Sistema de Vigilância e Avisos de Tempestades de Areia e Poeiras (Dust Storm Warning, Assessment and Advisory System), da OMM, que promove o desenvolvimento de previsões diárias de tempestades de areia e poeiras, e respectivo envio para centros operacionais a nível global, bem como a avaliação e investigação dos impactos das tempestades de areia e poeira. Vários Países Membros da OMM e outras organizações estão atualmente empenhados na investigação e previsão destes fenômenos, os quais têm especial impacto na Ásia, na África e na América do Norte.

Os SMHN dos Países Membros da OMM, e outras organizações que com ela colaboram, têm um papel fundamental na vigilância e na resposta às emergências ambientais. Durante uma emergência, em que substâncias perigosas são libertadas para o meio ambiente, durante a libertação de produtos químicos de uma indústria, numa erupção vulcânica, quando uma doença é transmitida através de um vetor aéreo ou num acidente numa central nuclear, os meteorologistas podem ajudar a prever a sua dispersão e propagação. É neste contexto que o programa da OMM Emergency Response Activities promove o acompanhamento, através de modelação numérica dos contaminantes atmosféricos, por Centros Meteorológicos Regionais Especializados da OMM (Specialized Meteorological Centers), em colaboração com a Organização Mundial de Saúde, a Agência Internacional da Energia Atômica (International Atomic Energy Agency), a Organização Internacional para a Aviação Civil (International Civil Aviation Organization), entre outros.

Através dos seus programas relacionados com a qualidade do ar, a OMM e os Serviços Meteorológicos dos Estados Membros tentam aumentar a conscientização sobre a estreita relação existente entre o tempo, o clima e o ar que respiramos, fornecendo informação relevante e credenciada aos decisores e ao público em geral.

Este é um esforço de colaboração que requer a cooperação de todas as comunidades e sectores e a sua importância irá traduzir-se no contexto da World Climate Conference-3 (WCC-3) que terá lugar este ano, em Genebra, de 31 de Agosto a 4 de Setembro.

No seguimento deste esforço, os SMHN continuarão a ser os principais impulsionadores na proteção da saúde do Homem e do ambiente. Estou confiante de que o tema do Dia Meteorológico Mundial de 2009 contribuirá para um maior empenhamento por parte dos Países Membros da OMM e de organizações ao mais alto nível, e desejo felicitá-los sinceramente nesta ocasião.


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